17/01/2015

Frases sobre a paixão pela leitura


 Não poderia deixar de citar algumas linhas da apresentação do livro "A paixão pelos livros " que tão bem expressa a paixão pela leitura daqueles que já a experimentaram e querem compartilhar com outros leitores. Ler apazigua a alma , relaxa , leva-te a outros mundos e momentos , é uma experiência única.

A paixão pelos livros é mais benéfica das compulsões humanas. A bibliomania, o furor de ler livros e de os ter , como definiu d'Alembert, garante a quem por ela é acometido prazeres sutis e constantes. para um bibliômano como Montaigne , a companhia dos livros é preferível à dos homens e  das mulheres. A biblioteca é uma espécie de harém , nas palavras de Emerson , ou a própria imagem da paraíso, na opinião de Borges.


A virtude paradoxal da leitura é de nos abstrair do mundo para nele  encontar  algum sentido.
DANIEL PENNAC

Gostamos sempre de sair um pouco de nós mesmos , de viajar, quando lemos. 
MARCEL PROUST

A vida está pulsando ali. O livro faz parte da casa , da comida , da experiência , da maternidade , do cotidiano.
ADÉLIA PRADO

Para mim é difícil  falar simplesmente do gosto pelos livros, porque em matéria de livros meu caso é mesmo mais grave: é um amor que vem desde a infância , que  me tem acompanhado a vida inteira, e ainda acima disto,  é incurável. Não se trata por isso de um interesse  periférico , e o prazer  que me tem proporcionado em todo este longo percurso, faz com que tenha procurado permanentemente , desejar que muito mais pessoas possam também desfrutá-lo. Daí  eu aproveitar  qualquer  oportunidade que me surja ( e  esta espero que seja  uma delas) para inocular  o vírus  do amor ao livro em todo os os possíveis leitores  que já não o tenham adquirido anteriormente.
JOSÉ MINDLIN

Nunca tive um dessabor que uma hora de leitura não aliviasse.
MONTESQUIEU

oi

05/09/2013

Práticas de Leitura e Escrita: Gênero Notícia

Esta postagem visa divulgar a produção  de escrita de alunos que foi realizada após desenvolvimento de  situação de aprendizagem , onde os alunos tiveram contato com diversas  leituras de textos jornalísticos e relatos de experiência.
A situação de aprendizagem proposta faz parte da Produção Textual da Avaliação em processo da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, várias produções estavam excelentes , mas vou transcrever a produção do aluno Matheus Vinicius Mendes de Souza, 6ª série B da EE Professora  Isabel Ferreira da Silva.
A produção foi realizada após a leitura de uma notícia de 30/04/13 que relatava a detenção de uma mulher por contrabando na Rodovia Castelo Branco, região de Itu e também após a leitura do conto A velha contrabandista de Stanislaw Ponte Preta.

Polícia Federal descobre velhinha suspeita de contrabando

      Uma velha é detida, por estar contrabandeando lambretas na Alfândega , o nome da idoso é Maria Pereira Cardoso.
        Ela passava muitas vezes por aquele local, até que foi descoberta  pelos fiscais,
 eles apreenderam a velhinha e confiscaram a  lambreta.
      A idosa de 67 anos confessou  que contrabandeava lambretas do Paraguai, e falou onde escondia as lambretas apara serem vendidas ilegalmente.
     As lambretas  que foram trazidas do Paraguai para cá foram todas apreendidas e a idosa foi julgada e pegou 2 anos e meio  de serviços comunitários.

                                                              Souza, Mateus Vinicius de .Produção de Notícia.

        Após o contato com textos jornalísticos observa-se  que na produção de Mateus  existe elementos da escrita jornalística, como: dados referentes a locais, nome completo da senhora, realiza  a coesão referencial  ao utilizar palavras sinônimas para evitar a repetição de" uma velha". Utiliza palavras típicas da linguagem policial: apreender, confiscar , detida, julgada. Sua produção possui várias características do texto jornalístico, no primeiro parágrafo apresenta o fato e depois vai detalhando as informações.É um aluno que possui um ótimo domínio da escrita e uma desenvoltura de raciocínio, visto que mesmo se baseando nas características principais do texto original ele conseguiu englobar em sua produção suas próprias conclusões a cerca do assunto.

16/06/2013

Situação de Aprendizagem -"Texto Pausa Moacyr Scliar"


Situação de Aprendizagem Texto:Pausa
Professora Leila Aparecida da Silva Sanches

1- Antecipação de leitura- o que contém um texto com o título Pausa
Levantamento das hipóteses dos alunos e elencá-las na lousa  para posterior checagem
Realizar uma pequena biografia do autor - Moacyr Scliar e suas obras.

Público alvo: 1ª  série do Ensino Médio , 9º ano

Duração Prevista: 06 aulas

Etapa  2-  Leitura Compartilhada
- o Professor lê o texto até o 9º parágrafo e questiona os alunos sobre o que o homem faz no domingo. Os alunos opinam, levantam hipóteses a partir dos dados que têm até o momento.
-Continuar a leitura até o 11º parágrafo até o primeiro período. 
-O professor indaga sobre o que ele faz a partir deste ponto. Os alunos fazem inferências, podem pedir para reler, vão participando da leitura, perguntando.

Etapa 3 -
- Continua-se a leitura até o 16º parágrafo. E questiona quem são essas mulheres que entram em cena? O que o homem faz naquele hotel simples?
-Vão confrontando as hipóteses levantadas anteriormente. Os alunos em geral são bastante perspicazes e participam bem, as vivências de cada um enriquece a discussão e a leitura.

Etapa 4 
- Leitura até o 22º parágrafo.
- O professor questiona: O que lhe parece conter nesses sonhos. Que figuras estão descritas ali. 
- Liberdade/individualidade 
-Perseguições/ cobrança da sociedade
- Realidade/tombou lentamente -apito do vapor - ligação com a realidade.
-Despertador - vida atribulada/estresse/cobranças/relógio/tempo
-Ritual - liberdade - id/ego/superego

Etapa 5
-Ler o final do texto - comparar juntamente com os alunos se as antecipações realizadas no início realmente se confirmaram.

Etapa 6 - relações de intertextualidade
Edward Munch - O grito
Analisar  a obra de arte. Dizer o que este quadro diz para vocês? 
Etapa7
Análise com os alunos da obra o Grito e estabelecer relações e comparação sobre a atitude do personagem tanto no texto como na obra. O que as duas obras têm em comum, analisar as cores e comparar com a descrição do sonho (texto). Estabelecer relações de intertextualidade de tema.
Etapa 8
Texto Passeio Noturno - Rubem Fonseca 
Intertextualidade
Texto: Passeio Noturno-Rubem Fonseca
-Também se realiza uma contextualização a respeito da vida e obra do autor.
-Ler o texto até a metade e solicitar aos alunos que continuem o texto por escrito.
-Considerando as hipóteses de escrita de seu grupo classe.

Etapa 9 
- O professor faz a leitura dos textos produzidos 
- Solicitar para alguns alunos que leiam suas produções
 - Ler o final do texto e contrapor com os resultados

 Etapa 10  - Checagem
- Comparação entre os três textos 
-Construção do sentido global do texto.
-Vida moderna - estressante /sujeito sem individualidade /desumanização. Perdidos diante do caos.

Habilidades de leitura
- Confirmação ou retificação de sentido criado antes ou depois da leitura;
-Localização do tema ou ideia principal;
-Identificação de pistas linguísticas;
-Esclarecimento de palavras desconhecidas se necessário;
-Construção do sentido global do texto.

Habilidades antes da leitura
-Levantamento de conhecimento prévio sobre o assunto;
-Expectativas sem função do autor;
Antecipação do tema ou ideia principal a partir dos elementos paratextuais - suporte, título, etc.

Bibliografia 
DOLZ, Joaquim e SCHNEUWLY, Bernard. Gêneros e Progressão em Expressão Oral  e Escrita-Elementos pra Reflexões Sobre Uma Experiência Suiça.Enjeux.
MARINHO, América. "Trabalho diversificado e Reflexões sobre o trabalho do professor". Projeto Rec. Paralela (2008).





01/06/2013

Depoimento sobre minha Experiência de Leitura


            Ler é muito importante na vida de qualquer pessoa, e os registros das histórias de leitura são sempre povoados de riquezas e pistas dos impactos da leitura na vida das pessoas.Quando criança, em casa não tinha muitos livros, mas tudo que chegava era bem vindo, meu pai costumava contar histórias para mim e meu irmão, contava as história de fadas , João e Maria , dentre outros . Já minha mãe contava histórias de sua infância, os bonecos bichinhos feitos de chuchu, sabugo de milho, boneca de milho e outros objetos ou frutos do sítio do vovô. Essa riqueza e ao mesmo tempo essa simplicidade me inseriu no mundo da leitura e da literatura.
            Moramos um tempo na casinha que ficava no sítio de meu avô. Nem imagine o tamanho desta casinha, era casinha mesmo parecia uma casa de mentira, uma casa de bonecas. Os dias que passamos lá foram muitos e longos, na verdade não me recordo o motivo, só me lembro que olhava ao longe enxergava o cruzeiro  e dizia  para mim mesma: “um dia irei atrás deste cruzeiro e lá encontrarei outro mundo, talvez melhor”. Desde pequena gostava de imaginar coisas, viajar atrás dos cruzeiros, conhecer o inusitado. Nesta época morávamos em Minas Gerais. Meu pai foi trabalhar em Bauru e para lá nos mudamos, ingressei na primeira série e para minha sorte minha professora Dona Léa amava ler para nós, todos os dias ela lia para nós e meu pai  continuava a contar histórias para mim e para meu irmão.Depois de algum tempo viemos para Mogi das Cruzes,  fui para a catequese e lá também minha professora gostava de ler e nos presenteava com livrinhos e eu , particularmente adorava ganhá-los.Li muitos livros, lia jornais velhos, revistas velhas , tudo até um caderno com anotações de direito que meu pai ganhou no trabalho eu li. Assim foram e minhas experiências se ampliaram , atualmente sou professora de Educação Básica , sou mestre em Semiótica, minha tese foi sobre leituras do professor e adoro o que faço e sempre que escrevo sobre o que é ler gosto de citar Saramago:

"...Que faz aí ao ler, Lendo, fica-se, a saber, quase tudo, eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou certa, Terás então de ler doutra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, a quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais alem da leitura, ficam pegados à pagina, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, A não ser, A não ser, quê esses tais rios não tenham duas margens, e que seja sua, e apenas sua, a margem, e que seja sua, a margem que terá de chegar, Bem observado, disse Cipriano Algor..."
                                                                                                        (Saramago,2000:77)                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

Cada um tem sua forma de ler. O importante é adentrar no mundo da leitura e conquistar os espaços , lendo e a cada leitura uma nova experiência de vida , pois ler é viver. 




25/01/2013



A CAUSA SECRETA

    GARCIA, EM PÉ, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o tecto
; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.
    Tinham falado também de outra cousa, além daquelas três, cousa tão feia e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da situação.
    Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele.
    A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi pelo beco do Cotovelo, rua de S. José, até o largo da Carioca. Ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando. No largo da Carioca entrou num tílburi, e seguiu para os lados da praça da Constituição. Garcia voltou para casa sem saber mais nada.
    Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era este que alguns homens conduziam, escada acima, ensangüentado. O preto que o servia acudiu a abrir a porta; o homem gemia, as vozes eram confusas, a luz pouca. Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um médico.
— Já aí vem um, acudiu alguém.
    Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou que seria parente ou amigo do ferido; mas rejeitou a suposição, desde que lhe ouvira perguntar se este tinha família ou pessoa próxima. Disse-lhe o preto que não, e ele assumiu a direção do serviço, pediu às pessoas estranhas que se retirassem, pagou aos carregadores, e deu as primeiras ordens. Sabendo que o Garcia era vizinho e estudante de medicina pediu-lhe que ficasse para ajudar o médico. Em seguida contou o
que se passara.
— Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui visitar um primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo depois um ajuntamento. Parece que eles feriram também a um sujeito que passava, e que entrou por um daqueles becos; mas eu só vi a este senhor, que atravessava a rua no momento em que um dos capoeiras, roçando por ele, meteu-lhe o punhal. Não caiu logo; disse onde morava e, como era a dois passos, achei melhor trazê-lo.
— Conhecia-o antes? perguntou Garcia.
— Não, nunca o vi. Quem é?
— É um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouvêa.
— Não sei quem é.
    Médico e subdelegado vieram daí a pouco; fez-se o curativo, e tomaram-se as informações. O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da Silveira, ser capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi reconhecida grave. Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito. No fim, entendeu-se particularmente com o médico, acompanhou-o até o patamar da escada, e reiterou ao subdelegado a declaração de estar pronto a auxiliar as pesquisas da polícia. Os dous saíram, ele e o estudante ficaram no quarto.
    Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma coisa acerca do ferido; mas
tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios.
    Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a cura fez-se depressa, e, antes de concluída, desapareceu sem dizer ao obsequiado onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indicações do nome, rua e número.
— Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o convalescente.
    Correu a Catumbi daí a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e acabou batendo com as borlas do chambre no joelho. Gouvêa, defronte dele, sentado e calado, alisava o chapéu com os dedos, levantando os olhos de quando em quando, sem achar mais nada que dizer. No fim de dez minutos, pediu licença para sair, e saiu.
— Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.
    O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo, para que no coração só ficasse a memória do benefício; mas o esforço era vão. O ressentimento, hóspede novo e exclusivo, entrou e pôs fora o benefício, de tal modo que o desgraçado não teve mais que trepar à cabeça e refugiar-se ali como uma simples idéia. Foi assim que o próprio benfeitor insinuou a este homem o sentimento da ingratidão.
    Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo. Picado de curiosidade, lembrou-se de ir ter com o homem de Catumbi, mas advertiu que nem recebera dele o oferecimento formal da casa. Quando menos, era-lhe preciso um pretexto, e não achou nenhum.
    Tempos depois, estando já formado e morando na rua de Matacavalos, perto da do Conde, encontrou Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda outras vezes, e a freqüência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato convidou-o a ir visitá-lo ali perto, em Catumbi.
— Sabe que estou casado?
— Não sabia.
— Casei-me há quatro meses, podia dizer quatro dias. Vá jantar conosco domingo.
— Domingo?
— Não esteja forjando desculpas; não admito desculpas. Vá domingo.
    Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se não resgatavam a natureza, davam alguma compensação, e não era pouco. Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove. Garcia, à segunda vez que lá foi, percebeu que entre eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor. Um dia, estando os três juntos, perguntou Garcia a Maria Luísa se tivera notícia das circunstâncias em que ele conhecera o marido.
— Não, respondeu a moça.
— Vai ouvir uma ação bonita.
— Não vale a pena, interrompeu Fortunato.
— A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o médico.
    Contou o caso da rua de D. Manoel. A moça ouviu-o espantada. Insensivelmente estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração. Fortunato sacudia os ombros, mas não ouvia com indiferença. No fim contou ele próprio a visita que o ferido lhe fez, com todos os pormenores da figura, dos gestos, das palavras atadas, dos silêncios, em suma, um estúrdio. E ria muito ao contá-la. Não era o riso da dobrez. A dobrez é evasiva e
oblíqua; o riso dele era jovial e franco.
    " Singular homem!" pensou Garcia.
    Maria Luísa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o médico restituiu-lhe a satisfação anterior, voltando a referir a dedicação deste e as suas raras qualidades de enfermeiro; tão bom enfermeiro, concluiu ele, que, se algum dia fundar uma casa de saúde, irei convidá-lo.
— Valeu? perguntou Fortunato.
— Valeu o quê?
— Vamos fundar uma casa de saúde?
— Não valeu nada; estou brincando.
— Podia-se fazer alguma cousa; e para o senhor, que começa a clínica, acho que seria bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e serve.
    Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a idéia tinha-se metido na cabeça ao outro, e não foi possível recuar mais. Na verdade, era uma boa estréia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos. Aceitou finalmente, daí a dias, e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a cabeça. O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade é que Fortunato não curou de mais nada, nem então, nem depois. Aberta a casa, foi ele o próprio administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas.
    Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua D. Manoel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem. Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operações, e nenhum outro curava os cáusticos.
— Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.
    A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração. Quando deu
por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por achada.
    No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer. Um dia, porém, não podendo mais, foi ter com o médico e pediu-lhe que, como cousa sua, alcançasse do marido a
cessação de tais experiências.
— Mas a senhora mesma...
    Maria Luísa acudiu, sorrindo:
— Ele naturalmente achará que sou criança. O que eu queria é que o senhor, como médico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que faz...
    Garcia alcançou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim. Maria Luísa agradeceu ao médico, tanto por ela como pelos animais, que não podia ver padecer. Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha alguma coisa, ela respondeu que nada.
— Deixe ver o pulso.
— Não tenho nada.
    Não deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao contrário, que ela podia ter alguma coisa, que era preciso observá-la e avisar o marido em tempo.
    Dois dias depois, — exatamente o dia em que os vemos agora, — Garcia foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou para ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa saía aflita.
— Que é? perguntou-lhe.
— O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.
    Garcia lembrou-se que na véspera ouvira ao Fortunado queixar-se de um rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que viu. Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorizado.
— Mate-o logo! disse-lhe.
— Já vai.
    E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo, porque o diabo do homem impunha
medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.
    Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética. Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente esquecido. Isto posto, não estaria fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda
um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue.
    Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida.
    "Castiga sem raiva", pensou o médico, "pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem".
    Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia, perda de tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo. Garcia ouvia só, sem dizer nada, nem lhe dar crédito. Relembrava os atos dele, graves e leves, achava a mesma explicação para todos. Era a mesma troca das teclas da sensibilidade, um diletantismo sui generis, uma redução de Calígula.
    Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com ela, rindo, pegou-lhe nas mãos e falou-lhe mansamente:
— Fracalhona!
E voltando-se para o médico:
— Há de crer que quase desmaiou?
    Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos, tal qual a vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os três, o marido sentado e olhando para o teto, o médico estalando as unhas. Pouco depois foram jantar; mas o jantar não foi alegre. Maria Luísa cismava e tossia; o médico indagava de si mesmo se ela não estaria exposta a
algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível; mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar.
    Ela tossia, tossia, e não se passou muito tempo que a moléstia não tirasse a máscara. Era a tísica, velha dama insaciável, que chupa a vida toda, até deixar um bagaço de ossos. Fortunato recebeu a notícia como um golpe; amava deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custava-lhe perdê-la. Não poupou esforços, médicos, remédios, ares, todos os recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo vão. A doença era mortal.
    Nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça, a índole do marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima, pública ou íntima. Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez só.
    De noite, indo repousar uma parenta de Maria Luísa, que a ajudara a morrer, ficaram na sala Fortunato e Garcia, velando o cadáver, ambos pensativos; mas o próprio marido estava fatigado, o médico disse-lhe que repousasse um pouco.
— Vá descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois.
    Fortunato saiu, foi deitar-se no sofá da saleta contígua, e adormeceu logo. Vinte minutos depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou alguns minutos, até que se levantou e voltou à sala. Caminhava nas pontas dos pés para não acordar a parenta, que dormia perto. Chegando à porta, estacou assombrado.
    Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento.
Olhou assombrado, mordendo os beiços.
    Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.

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24/01/2013

Fernando Pessoa...

Fernando Pessoa - "Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse."