22/01/2013
A MAGIA DA LITERATURA: O QUE HÁ POR DE TRÁS DOS DISCURSOS?
Leila Aparecida da Silva Sanches
Mestre em semiótica, Tecnologias da Informação e Educação – Universidade Braz
Cubas (UBC)
ABSTRACT: This present paper go to studying at magic of the literature and his transformer form, when the teacher gives emphasis in his work the reinforcement the positives values, detaching how the mode of exist is more important than the mode of appearance so much valorized for consumption society, turning clarity at hypocrisy of the society.
KEYWORDS: Literature, social responsibility, society.
RESUMO: O presente trabalho faz um estudo da magia do discurso literário e seu papel transformador, principalmente quando o professor prioriza em seu trabalho reforçar os valores positivos, destacando que o modo de ser é mais importante e ético do que o modo de parecer tão ressaltado pela sociedade de consumo, tornando claro a hipocrisia da sociedade.
PALAVRAS-CHAVE: literatura, responsabilidade social, sociedade.
1- Introdução
A questão na pós-modernidade é como transformar informação em conhecimento, como despertar no aluno ou no aprendiz o desejo por aprender a aprender e como criar uma escola onde os interesses locais sejam trabalhados juntamente como os conhecimentos acumulados pela humanidade.
A contextualização dos conhecimentos é um caminho apontando pelas políticas educacionais, seja o modo de implementar a inclusão e a eficácia da educação, pois criando uma educação distante das necessidades das pessoas, conseqüentemente as suas respostas serão negativas, principalmente quando se trata do texto literário.
Juntamente a estes problemas surgem os problemas de fragmentação das linguagens, os discursos da mídia, produzindo um sujeito descentrado. As validades pragmáticas, os valores da sociedade capitalista direcionam os sujeitos para o consumo, para a individualidade extrema, para a técnica, vendem a todo o momento um modelo ideal de classe média, afastando os indivíduos da leitura como forma de reflexão, de preenchimento dos não-ditos, da relação com outros textos ou conhecimentos.
O presente trabalho tem em seus objetivos na análise de um texto de Saki, escritor inglês que viveu entre 1870 e 1916 e manifestou em seus relatos uma atitude crítica em relação à hipocrisia da sociedade da época, o texto “A História de Berta” será analisado segundo as teorias semióticas de Greimas, mostrando-nos a importância da análise do discurso pelo docente para que ele assuma o papel de ator principal na formação da cidadania responsável.
“ O que importa é que as vidas não servem de modelos. Só as histórias servem . E é difícil tecer histórias através das quais possamos viver. Só podemos viver nas histórias que lemos ou vimos. Vivemos nossas próprias vidas através de textos. Podem ser textos lidos, contados, experimentados eletronicamente, ou podem ser textos que cheguem até nós através dos murmúrios de nossa mãe, dizendo aquilo que as convenções exigem. Qualquer que seja a forma ou meio, essas histórias formaram a todos nós, e são essas histórias que devemos usar para fabricar novas ficções, novas narrativas.” (Hulbner, 1988, p.37 )
Lajolo (2001), democratizar a leitura deve ser nosso objetivo, porém sabemos não ser tarefa fácil, mas a escola é e deve ser o lugar democrático da literatura, sua avalista maior. Cabe a nos professores transformarmos este espaço fabricando junto com nossos alunos novas ficções, novas reflexões, novas críticas, novas narrativas, e novos sujeitos.
Para Trocmé-Fabre (2004), atualmente no mundo inteiro, se impõe a urgência de uma verdadeira alfabetização, que consiste em compreender – e em escrever – o livro do meio ambiente, o livro dos outros e o livro de si mesmo.
2- O Espaço do Texto literário
O texto de Saki produz uma fragmentação, pois possui três narrativas dentro de uma. A análise deste conto vai nos mostrar os modos de produzir textos diferenciados que não procuram apenas moralizar, mas criticar a hipocrisia ou a sociedade de uma época, ou seja, os modos de enunciar.
Ressaltamos também a importância do docente conhecer as estruturas narrativas, os diferentes narradores presentes no texto. Esse conhecimento irá refletir no trabalho em sala de aula, mas para que isso ocorra o professor deve ser leitor, entender e buscar na literatura condições de formação dos sujeitos, futuros agentes na sociedade.
“Nos primeiros ciclos da escolaridade, para efeito de desenvolvimento de estratégias de compreensão, especialmente quanto ao enredo da história narrada, e conveniente privilegiar o trabalho com formas narrativas simples – ou seja aquelas nas quais a ordem em que se desenrolam os acontecimentos coincide com a ordem, em que são apresentados por um único narrador em terceira ou primeira pessoa nas quais prevalece o discurso direto, a maior parte das narrações, especialmente as literárias , caracteriza-se por textos complexos, que alternem narradores e pontos de vista, intercalam histórias, antecipam acontecimentos ainda não ocorridos ou omitem episódios inteiros.” (Gandolfi,2005, p.19)
Apesar da complexidade oferecida por estes textos, principalmente com os contos modernos brasileiros sua apresentação e contextualização às crianças de ciclo I são necessárias e fundamentais. Realmente as crianças confundem a posição do narrador, a seqüência dos episódios ou acontecimentos, mas sem esta experimentação não há a inserção do sujeito no mundo da leitura e da literatura e o quanto antes isto acontecer melhor.
A presente análise considera os modos de existência e produção, papéis actanciais e temáticos, percursos e programas narrativos, estruturas de poder, modalidade e modalizações, relações intersubjetivas e espaço-temporais de enunciação e enunciado, de acordo com os modelos teóricos da semiótica greimasiana (Greimas, 1979, 2001; Courtes, 1996, Pais, 1993; Bertrand 2003).
Foram enfatizados particularmente macrossistemas de valores, em semiótica profunda, conceitos, modelos mentais (conceptus Rastier,1991) , (in Paris,p.2, 2003)
O contista apresenta três histórias dentro de uma só, a primeira é a história da tia e das crianças irrequietas, do solteirão e da viagem de trem; a segunda é a história da menina boa que é salva do touro e a terceira a História de Berta, uma Chapeuzinho Vermelho invertida.
Primeira História: História dos viajantes
“Era uma tarde calorenta e na cabine de trem o ar estava se tornando sufocante. Faltava quase uma hora para chegar a Templecombe, a próxima estação. A cabine foi ocupada por duas meninas, uma mais nova que a outra, e um menino, acompanhados de uma tia, sentada na ponta do assento;em frente , no outro extremo, havia um solteirão que não fazia parte do grupo, o que não impediu que as crianças se instalassem em seu assento... Aparentemente , a maior parte das frases da tia começava com “Você não deve” e quase todas as observações das crianças com “Por quê?”. O solteirão não manifestou em voz alta o que pensava. (...)
Destinatário Destinador
Tia Sociedade
Adjuvantes
Frases de ordem
Sujeito Objeto de valor
Domesticar ,
Educar as crianças
Tia crianças irrequietas
Crianças ignoram as frases
Olhar de repreensão do solteirão
Oponentes
Segunda história: História da menina que foi salva pelo touro
Venham aqui que eu vou contar uma história _ disse a tia depois que o solteirão olhou para ela duas vezes, uma delas com uma expressão de surpresa (...)
Em voz baixa e num tom confidencial, interrompida a intervalos freqüentes pelas perguntas petulantes que seus ouvintes faziam em voz alta, começou um relato lamentavelmente desprovido de interesse a respeito de uma menina que era boa e que havia se tornado amiga de todos devido à sua bondade, e que finalmente foi salva do ataque de um touro furioso por várias pessoas que a admiravam por sua virtude.
Observemos os questionamentos das crianças:
“_ Se não tivesse sido boa, não a salvariam?”.
_ Sim, claro _ admitiu debilmente a tia _, mas ....
_nunca escutei um conto mais estúpido _ disse a menina mais velha “...
Destinatário Destinador
Tia Hipocrisia da
Sociedade
Adjuvantes
História da menina boa-bondade
Validação da sociedade-escola, família
Sujeito Objeto de valor
Histórias para moralizar
Tia solteirão contos, fábulas e outros
Questionamentos da s crianças
Oponentes
Terceira História: História de Bertha
“Era uma vez _ começou o solteirão _ uma menina chamada Bertha , que era extraordinariamente boa. (...) era sempre obediente, nunca mentia, sua roupa estava sempre limpa,comia pudins de leite como se fossem tortinhas recheadas de doce , aprendia perfeitamente suas lições e era bem educada. (...)
_ Não tão linda como você _ disse o solteirão _ , mas era horrorosamente boa.
Houve uma reação favorável por parte das crianças. A palavra horrorosa à bondade era uma novidade recomendável por si só. Introduzia uma aparência de verdade que estava ausente dos contos da vida infantil que a tia contava.
_ Era tão boa _ prosseguiu o solteirão que sua bondade lhe valeu medalhas que estavam sempre presas em seu vestido. Uma medalha em prêmio à obediência, outra à pontualidade e uma terceira por conduta. (...)
“_ Todos falavam de sua bondade e o príncipe da região ouviu boatos a respeito, e disse que, já que ela era tão boa, teria autorização de passear uma vez por semana em seu parque, que ficava nos arredores do povoado. Era um parque muito belo e no qual não se permitia que as crianças entrassem, de modo que era uma grande honra para Bertha ser convidada para ir ali.
(...)
“_ O lobo começou a farejar entre seus ramos, com sua língua negra saltando da boca e seus olhos cinza-claros brilhando de fúria. (...)
“_ Bertha tremia toda por sentir o lobo rondando e farejando tão perto dela, e, ao começar a tremer, a medalha da obediência se chocou com a de boa conduta e a de pontualidade. ... O lobo pulou sobre o arbusto, com seus olhos cinza-claros que brilhavam de ferocidade e satisfação, e arrastou Bertha de seu esconderijo e a devorou até o último pedacinho. (...)
Destinatário Destinador
Solteirão Literatura engajada de Saki
Adjuvantes (Ad)
-adesão das crianças
-o conto
-intertextualidade
Sujeito Objeto de valor
-Tia
-sociedade da época
Oponentes
Sobre esta análise estamos privilegiando o comportamento das crianças junto à sociedade e o impacto das histórias para educar, domesticar. Temos aí a literatura utilitária produzida especialmente para ensinar , passar os valores da sociedade da época.
De fato, os discursos literários dirigem-se ao mesmo tempo, com freqüência a vários Destinatários –Sujeitos, ocupando-se de distintos programas narrativos e objetos de valor, conforme vimos.
3- Dos destinatários –sujeitos e objeto de valor
Os textos literários também possuem destinadores –manipuladores, pois os autores e editores representam valores, épocas distintas, assumem-se para si discursos quando lhes convêm. O texto literário com caráter estético que visa o prazer do leitor na literatura brasileira e mundial data dos anos 1970.
Os textos instauram sujeitos que tomarão como receita suas idéias. Citemos como exemplo as fábulas com sua figuratividade que nos remetem a lições de morais e de vida inesquecíveis, que um desses momentos incorporamos em nossos discursos como se fossem valores internos e não ditados pela sociedade de uma época. Ainda hoje atuais ,com releituras e aplicações.
Utilizemos como exemplo a História dos Três Porquinhos utilizada há alguns anos como mote para a produção de um comercial de televisão para uma Empresa de Cartão de Crédito, onde fica claro que o poder do dinheiro vence e tira o direito dos mais fracos.
A propaganda tinha os seguintes termos: os porquinhos construíram suas respectivas casas conforme na história: a primeira de palha, a segunda de madeira e a terceira do porquinho mais inteligente, esperto, maduro e persistente a casa de tijolos que o lobo na versão original não consegue destruir, assoprar, derrubar, mostrando que o valor da inteligência, do trabalho, da persistência é valorizado, mas no mundo globalizado, ou seja, do capital, o poder tem como seu aliado o dinheiro, a tecnologia; e o lobo lança mão do trator para destruir a casa de tijolos do terceiro porquinho. E no final da propaganda é dito: com Mastercard tudo é possível.
A sociedade lança mão da literatura para atualizar valores que pensamos esquecidos e que não teriam lugar na sociedade atual, mas o que ocorre é o inverso, os valores e a hipocrisia da sociedade estão aí muito atuais . Seja para moralizar, domesticar ou para incutir os preceitos da sociedade moderna (capital, consumo), distante da consciência ética, da responsabilidade social dos indivíduos.
Desta forma, tanto o texto de Saki como a propaganda procuram conscientizar o indivíduo que deve valorizar os preceitos morais , mas na sociedade moderna o que vale como moeda corrente é a esperteza , a inteligência para saber lidar com as camadas mais populares e levar vantagem. O conhecimento e o domínio do texto escrito em suas várias modalidades é moeda corrente para a formação do sujeito crítico, criativo e reflexivo e atuante na sociedade em que vive.
Estes Destinatários manipuladores podem ser a escola, as famílias, a sociedade da época, as mídias, um agente publicitário no caso da propaganda, pois a mídia desempenha eficazmente o papel de “educadores” e construtoras de opiniões e valores. O objeto de valor é como ser cidadão numa sociedade tão fragmentada como a nossa, produzindo sujeitos descentrados. Pois fica-se entre os verdadeiros valores e , por um lado e por outro como obter sucesso e status a qualquer preço. Onde o modo de parecer é mais importante que o modo de parecer. (Pais, 2003)
Como no texto de Saki a propaganda utilizou –se dos contos infantis tradicionais para mostrar outros valores ou a sua inversão e ao mesmo a sua acentuação.
Há uma ruptura na história de Saki, quando a bondade e as virtudes não são recompensadas e o mesmo ocorre com os porquinhos onde o trabalho, a inteligência, a persistência e a responsabilidade, também não são recompensados.
Saki critica a sociedade época pela sua hipocrisia, pelo excesso de moralização nos textos produzidos para crianças da época (séc. XIX e XX ) , já os produtores da propaganda reforçam intencionalmente ou não o poder do dinheiro e aniquilam e até anulam valores, ressaltando que a esperteza, o status, a tecnologia do possuir o cartão elimina qualquer obstáculo, seja ético ou não.
4- Analisando a propaganda
O destinador é a agência de Publicidade que vai instaurar o destinatário telespectador que instaura o sujeito telespectador consumidor que tem como objeto de valor : os benefícios e facilidades do cartão de crédito = poder, status que terá como adjuvante – a própria propaganda (ilustração do poder, baixo custo da anuidade) e como oponentes; pessoas conscientes sobre seus valores positivos, consumidores responsáveis, posturas éticas, pessoas contra o capital , a dominação e domesticação.
Além da diversidade de narradores presentes no texto “O Contista” e também na análise da propaganda, os pontos de vista do narrar nos proporciona um enriquecimento imenso, mas para que isso ocorra é necessário o reconhecimento dos diferentes modos que uma história pode ser contada ou recontada e sua atualização e isto em determinado texto também são significativos para sua compreensão.
Assim a cumplicidade dos sujeitos com seus manipuladores se dá através da aceitação destes valores como naturais, normais à natureza humana onde o modo de parecer é mais importante que o modo de ser.
Na sociedade contemporânea, dita pós-moderna ou globalizada, altamente competitiva, individualista, constantemente ameaçada pela ruptura do tecido social e pela enfática negação da solidariedade ou de sentimento de pertencer ao grupo – país, região, classe social, classe profissional, etc – torna-se necessário, cada vez mais, compatibilizar boa consciência e a eficácia, na busca conquista de Objeto de valor, na medida em que a valorização social dos indivíduos, dos segmentos sociais dos grupos , das tribos urbanas se dá , sobretudo, pela busca do sucesso a qualquer preço. (Pais, 2003,p.6)
A tensão se estabelece entre os valores éticos trabalhados na literatura engajada e os valores morais utilizados de modo utilitário nos contos tradicionais e na propaganda do cartão Mastercard, considerados culturalmente consensuais, são , em grande parte , responsáveis pela sustentação de valores que reafirma, retoricamente a legitimidade do recomendável ( o sucesso a qualquer preço, esperteza ,entre outros) , no plano individual e coletivo , enquanto os Objetos de valor, no modo de ser ,asseguram a eficácia discursiva no entendimento de que a leitura crítica e reflexiva leva os sujeitos apesar deste grande apelo da sociedade de consumo ser um caçador ilegal do verdadeiro ser humano, onde o ser , volta a ser mais importante que o modo de parecer.
Essa imagem do leitor caçador ilegal em uma terra que não é a sua designa uma questão fundamental em toda a história ou sociologia cultural; a da variação, segundo o tempo e o lugar , os grupos sociais e as comunidades de interpretação, as condições de possibilidade, as modalidades e os efeitos dessa caça ilegal.” (in Chartier, Michel Certeau,2001,p.155 ).
Desta forma o texto literário é o lugar desta caça ilegal, é como se o leitor, principalmente o leitor da escola pública fosse buscar os instrumentos e recursos para sua inserção ao mundo letrado, portanto a sociedade do conhecimento.
5- Viver literatura e ensinar literatura. Como mediar esta prática?
Como na proposta de Saki a hipocrisia da sociedade é clara, dirige-se a um sujeito com os valores morais : responsabilidade, bondade, pontualidade, entre outros, mas o que a sociedade valoriza na realidade não é isso.Ou por outras palavras, ao lado da busca do lucro”econômico’ que, ao transformar o comércio dos bens culturais em um comércio semelhante aos outros, e não dos mais rentáveis “economicamente” (como nos é lembrado pelos mais experientes, ou seja, os mais desinteressados dos comerciantes de arte), se contenta em ajustar-se à demanda de uma clientela antecipadamente convertida, existe lugar para a acumulação do capital simbólico, como capital econômico ou político denegado, irreconhecido – portanto legítimo-, crédito capaz de garantir, sob certas condições e sempre a prazo, ganhos econômicos. (Bourdieu,2002, p.20)
Na propaganda ocorre o mesmo, o autor utiliza-se do conto tradicional.Os três porquinhos para mostrar os valores morais como no caso do texto “O Contista” também instaurando sujeitos consumidores de valores culturais, mas quando o telespectador pensa que acabou a história, e o lobo lançou mão do trator comprado com o cartão de crédito Mastercard, diz ao sujeito consumidor que a sociedade vende. Negocia estes valores, mas o que vale na sociedade atual é a esperteza, o poder, a classe que você pertence, etc.
Como ocorre na Europa dos séculos XIX e XX a hipocrisia da sociedade provoca o descentramento do sujeito, pois como nos afirma Stuart Hall a linguagem, a organização da sociedade através de instituições como a escola, a polícia (sistema prisional) criam modos disciplinadores, portanto disseminadores de valores.
É correto afirmar que haver sociedade, implica em haver linguagem e literatura em decorrência haver leitura.
“ A leitura é antes de mais uma decifração de códigos de linguagem que permitem a comunicação: como tal pressupõe o conhecimento das cifras utilizadas, o contato possível com os códigos que o condicionam e o entendimento das situações humanas que a linguagem reverte e subverte – porque na materialidade das cifras, na marca cultural do código, se encontram logo os dados iniciais de formulação da descoberta que a utilização individual , personalizando, concretiza estatutariamente em conceptualização humana. Por isso a leitura ultrapassa imediatamente, fazendo-se, uma pressentida mas inexistente fase de apreensão maquinal da significação, e converte-se na progressiva efetivação , em escrita potencial, isto é , em atuação dinâmica (mental ou pragmática) que por sua vez criará novas necessidades de novas leituras.” (Seixo,p.9,1978)
É nesse sentido que o professor deve iniciar o quanto antes a criança à leitura de textos que levem à reflexão, à crítica ativa e ao conhecimento das cifras utilizadas nos mais variados gêneros, ressaltando o literário.
Estamos imersos num mundo de leitura e escrita e estar alheio a este universo, é estarmos isolados, sem voz, sem participação, nos reduzimos a sujeitos manipulados nas mãos de quem detém o poder. Isto vale para sujeitos alunos e sujeitos professores .
“Capacitando o ser humano a pensar e agir com liberdade, ainda que mediado pela fantasia e pelo imaginário, a leitura sinaliza o perigo para sociedades ou indivíduos autoritários . Por isso nunca deixou de ser criminalizada, encarnando o demônio, a magia ou o desconhecido temido pelos poderosos. Ao ser-lhe atribuída a propensão a fazer o mal, ela parece comprovar sua eficiência.” (Zilberman,p.38,2001)
5- Considerações Finais
Pais (2003) , no plano da axiologia mais profunda, verifica-se que o discurso da propaganda e da literatura utilitária , no tocante a formação de valores , sustenta uma concepção de mundo fundada na dominação seja através dos valores morais (gerando controle) ou através da construção de um sujeito virtual (consumidor) que em poder de determinados bens (simbólicos ou não) conseguem passar por cima de tudo e levar vantagem, acarretando graves prejuízos à formação de uma cidadania responsável e solidária, conduzindo a uma forma de deseducação política.
Por outro lado quando formamos indivíduos para ler além das palavras, além das figuras e dos gestos, podemos construir sujeitos éticos não por que ser ético e justo se ganha um lugar no Céu, ou se tem aprovação deste ou daquele grupo, mas por que ser ético faz parte da condição humana.
Tomando as palavras de Saki “ Não havia flores no parque , porque os leitões tinham-nas comido. Os jardineiros explicaram que não era possível ter flores e leitões ao mesmo tempo. Decidiu-se ter leitões”, ou seja , na sociedade atual só sobrevivem os fortes , teoricamente não existe lugar para os mais delicados, e obter o sucesso deve ser a meta e a qualquer custo.
Referências Bibliográficas
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GANDOLFI, Giselda. Compreensão leitora: a compreensão das narrativas literárias/ Gi
Selda Gandolfi; tradução e adaptação de Rosana Correa Pereira El Kadri, Maria.
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HALL, Stuart A identidade cultural na pós-nodernidade/Stuart Hall;tradução de Tomas
Tadeu da Silva,Guaracira Lopes Louro, Rio de Janeiro, 2005.
PAIS, Cidmar Teodoro. Propaganda e publicidade no discurso institucional da educação
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RASTIER, François. Semiotique et recherches cognitives. Paris ,P.U.F., 1991.
SEIXO, Maria Alzira . Introdução a uma prática de leitura. In O homem na Linguagem.
Lisboa: Arcádia, 1978
TROCMÉ-FABRE, Helène . A árvore do saber aprender: rumo a um referencial cognitivo/
Helène Trocmé-Fabre: tradução Marly Segreto - São Paulo: TRIOM, 2004.
ZILBERMANN, Regina. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. Org. Regi-Na Zilbermann. Porto alegre. Mercado Aberto,1986.
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