22/01/2013

DISCURSO EDUCAÇÃO: SUJEITO LEITOR, VALORES E IDENTIDADE Mestranda Leila Aparecida da Silva Sanches (Universidade Braz Cubas) RESUMO: Este estudo tem como finalidade apresentar pesquisa relacionada ao universo cultural do professor da rede Pública de ensino, especificamente sobre os tipos de leitura. Para tanto, analisou como estas experiências de leitura realizadas pelo professor se vinculam ao discurso pedagógico no que se refere a eficácia. Identificou-se quais os gêneros que os professores lêem, além de analisar de que maneira o perfil de leitor do professor determinado pela tipologia textual pode mediar a leitura do texto acadêmico. Procurou-se estudar quais os valores que determinam as escolhas de leitura por parte dos professores e quais os pontos nos quais se insere a identidade da leitura e a atuação profissional. PALAVRAS-CHAVE: Semiótica, Análise do Discurso, Identidade Cultural, Formação, Educação. SUMMARY: This study aims to present research related to the cultural universe of the teacher's network of public education, specifically on the types of reading. Thus, examined how these experiences of reading held by the teacher is teaching bind to the speech with regard to efficiency. It was identified which genera that teachers read, in addition to examine in what way the reader profile of the teacher determined by the type textual may mediate the reading of the text academic. It was studying what the values that determine the choices of reading by teachers and what the points where it forms the identity of reading and professional performance. KEYWORDS: Semiotics, Analysis of Speech, Cultural identity, Training, Education. 1-Introdução O presente estudo tem como finalidade apresentar pesquisa realizada em torno do universo cultural do professor da Rede Pública de ensino, especificamente sobre os tipos de leitura.. Para tanto, analisou como certas experiências de leituras realizadas pelo professor se vinculam ao discurso pedagógico no que se refere à eficácia. Pretende traçar o perfil cultural do professor de língua portuguesa, tão criticado na atualidade por não formar leitores. As reflexões iniciais para a elaboração deste projeto têm sua origem em observações em Cursos de Educação Continuada oferecidos pela Secretaria de Estado de Educação de São Paulo oferecidos aos professores da Rede Estadual de Ensino. O que foi possível observar é que o professor lê, no entanto, a leitura realizada por ele, em sua maioria está fora do padrão oficial pensado para quem seja possuidor de formação superior. O profissional da linguagem, hoje realiza uma leitura massificada que os afasta da leitura dos clássicos da literatura brasileira e universal, fazendo-os preferir emoções fáceis como as telenovelas, livros de auto-ajuda e psicografados, do que enfrentar as tensões de um texto literário. Há um distanciamento do leitor-professor da leitura sobre sua área de formação profissional. Este distanciamento dificulta tornar a leitura objeto de reflexão, ampliação de horizontes, experimentação e diálogo com o passado e um olhar crítico no futuro. O professor é resultado da sociedade em que vive, se a sociedade sofre transformações, estas transformações refletem também no professor, enquanto sujeito histórico e social. O objetivo principal do presente projeto é identificar quais os gêneros textuais que os professores lêem. Além de analisar de que maneira o perfil de leitor do professor determinado pela tipologia textual pode mediar a leitura do texto acadêmico tão importante para o letramento de formação. O presente estudo tem em Lyotard algumas reflexões sobre o lugar do conhecimento na sociedade atual, sobretudo, sobre a linguagem. Com ênfase no saber narrativo, mas destacando a importância do conhecimento científico para a liberdade dos sujeitos e para o desenvolvimento de seu espírito especulativo. Em síntese, pretende através da análise do discurso educação identificar o sujeito leitor, em destaque o professor de língua portuguesa, seus valores e sua identidade na sociedade atual, e desta forma destacar o reflexo de sua identidade na sua atuação e formação, conforme Lars Dinerk, in Bauman: “As afiliações sociais – mais ou menos herdadas- que são tradicionalmente atribuídas aos indivíduos como definição de identidade: raça ... , gênero, país ou local de nascimento, família e classe social, agora estão... se tornando menos importantes, diluídas e alteradas nos países mais avançados do ponto de vista tecnológico e econômico. Ao mesmo tempo, há a ânsia e as tentativas de encontrar ou criar novos grupos com os quais se vivencie o pertencimento e que possam facilitar a construção de identidade. Segue-se a isso um crescente sentimento de insegurança.” (Lars Dinerk,in, Bauman,2005,p.31) O professor enquanto sujeito e cidadão também passa por essa crise de identidade, procurando se encaixar nos novos grupos sociais em busca de pertencimento. Também se afilia a comunidades da internet, clubes de lazer ou outros que lhes tragam uma relação com a sociedade moderna, clube dos leitores do momento, e essa insegurança e sentimento de desejo de pertencimento cria sujeitos preocupados em atender as demandas e apelos da sociedade de consumo , portanto pouco preocupados com a qualidade de formação que necessitariam para ser um profissional realizado pessoal e financeiramente. Desta forma, o perfil de professor de língua portuguesa esperado é aquele familiarizado com as diversas linguagens, aquele que domina o discurso reflexivo-argumentativo. Mas o que temos é um sujeito leitor enredado para os caminhos do saber narrativo, preso a heróis, ao misticismo, ao mítico, gerando uma crise de identidade e valores que interferem na formação de leitor que o professor de língua materna precisa ser proprietário para chegar a eficácia de seu discurso. 2- O professor, a sociedade e sua formação A questão na pós modernidade é como transformar informação em conhecimento, como despertar no aluno-futuro-professor o desejo de aprender e como criar uma educação , onde os interesses locais sejam tão importantes quanto os conhecimentos acumulados pela sociedade. No Brasil a Formação de professor é muito criticada, constantemente ouvimos críticas da mídia e da sociedade civil sobre a precária formação de nossos professores., dizendo que ele não é um bom leitor, pois não consegue interferir nos problemas de seus alunos e ajudá-los . E este círculo se repete, o professor de Educação Básica não consegue interferir nos problemas de aprendizagem de seus alunos e estes chegam às universidades com as mesmas dificuldades e lá também o problema permanece. Logo os alunos pouco lêem em todos os níveis de educação , se lêem não é dentro do padrão pré-estabelecido, e as críticas à formação do profissional de educação cresce e se acentua. Assim, Lyotard destaca o processo de desmoralização do profissional da educação: “A desmoralização conseqüentes dos pesquisadores e dos professores é fato importante , tanto que veio à tona. Como se sabe junto àqueles que se destinavam a exercer estas profissões, os estudantes, ao longo dos anos 60, em todas as sociedades mais desenvolvidas, e veio tardar sensivelmente, durante este período, o rendimento dos laboratórios e das universidades que não conseguiram evitar a sua contaminação...”(Lyotard, 1979,p.xii) Esta forma negativa de se considerar a leitura do professor, e conseqüentemente sua atuação e formação tem reflexo imediato na construção de sua identidade e de seus valores . Houve um confisco do discurso do professor de educação básica, atualmente quando se fala de alguma espécie de crise ou problemas em educação muitos são chamados a dar seus depoimentos e opiniões, mas o professor de educação básica, aqui em destaque, não é chamado. Um professor avaliado positivamente, com seu discurso respeitado e valorizado, em especial pelos pesquisadores e a sociedade como um todo dará aulas interessantes, planejadas e principalmente diversificadas, no entanto, os sistemas educacionais se apossaram deste discurso negativo e até depreciativo para justificar as péssimas condições de trabalho, falta de materiais didáticos, e principalmente os baixos-salários oferecidos aos professores. E o professor também sujeito desta sociedade, pouco crítico, sem consciência de sua importância social, após algum tempo de sua formação, se acomodará e aceitará como natural o fracasso na carreira e se verá sem saída. Mas existem sujeitos que preferem um poder querer fazer do magistério uma profissão para a qual precisam lançar mão de ferramentas específicas para determinadas situações –problema, então vai precisar de um saber-fazer que só é possível através da atualização constante e de leitura de textos relacionados a sua área de formação. Na sociedade atual este desejo é necessário e urgente, como destaca Trocmé Fabre: “A confusão conceitual na qual se encontram os mundos do trabalho e da educação fez com que surja a urgência de propor: acima dos referenciais das diferentes profissões, os elementos de um referencial cognitivo que completem de modo proveitoso, a busca de coerência , de pertinência e de eficácia, daqueles ou daquelas que buscam construir um percurso profissional . Eles sabem que seu percurso profissional não pode ser vivido fora de seu percurso pessoal.” (Trocmé Fabre,2004,p.10) Daí a importância desse querer – poder - fazer, pois o desejo parte de dentro de cada um e os percursos diferentes são traçados a partir destes referenciais . O Destinador deveriam ser os cursos de Formação, mas muitas vezes isto não acontece. Há uma crise de identidades, assim: “Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do século XX [...] . Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais , abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados [...]. Esse duplo deslocamento-descentração dos indivíduos tanto do seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma crise de identidade para o indivíduo.” (Hall,2005,p.9) Estas transformações geram sujeitos professores divididos entre a competência técnica e profissional e a docência tradicional vista como vocação, dom, doação. E em relação aos cursos de Formação ... O ser professor não exigia uma formação científica, atualmente global, multidisciplinar, pois bastava ter conhecimentos sobre a vida e de como esta se organizava dentro das comunidades. Como acontecia nas sociedades tribais, onde os conhecimentos eram passados de geração a geração pelos mais experientes. A referência do saber, era do saber narrativo, baseado nos heróis, nos fatos, nos costumes, no mítico. Na docência tradicional havia muito desse saber e atualmente também, pois se trata de uma exigência da sociedade pós - moderna que precisa que as coisas aconteçam rapidamente, produzindo leitores restritos ao conhecimento somente de alguns gêneros, mas esta crise já é perceptível e reflete no mercado de trabalho que exige profissionais cada vez mais capacitados e que dominem o saber especulativo, ou seja, o conhecimento científico. Quanto ao saber/conhecimento em sua modalização científica, esse se configura como última etapa do desenvolvimento da cultura humana.. è um produto recente e requintado que só pôde desenvolver em condições especiais. Antes dos pensadores gregos- Pitágoras, Platão, e Aristóteles - não existia sequer a concepção de ciência. Esquecida por séculos, esta concepção foi resgatada e novamente estabelecida no período do Renascimento , de lá para cá , a vitória da ciência denota ser completa e incontestada. “Não existe nenhum segundo saber no nosso mundo moderno que possa ser comparado ao do científico. (Cassirer;2005,p.338)”, portanto os diversos leitores transitarem por este tipo de texto é fundamental para a formação de um leitor crítico e reflexivo. A incorporação e valorização do saber científico na formação dos professores é muito importante , para tanto é necessário que a literatura destinada a formação de professor valorize, priorize o saber científico, seja na didática e também em relação aos conteúdos específicos de cada área. O professor ou o aluno-futuro-professor é um sujeito aprendente, e para dominar as estratégias de compreensão do texto científico deve se iniciar nesta leitura e a universidade é a instituição que irá fazer esta iniciação e mediação. Assim o papel dos educadores de educadores dever ser: “...lembrar ao aprendente que aprender é, por essência , a recusa ao fechamento. O aprendente , segundo a expressão de Edgar Morin,é auto-hétero-didata. A relação entre o professor e o aprendente deve ser estabelecida numa progressão em direção às trocas, onde cada um emite e recebe, para que se realize a obra comum. O papel do professor é coerente com a realidade cognitiva , quando ele acompanha o aprendente em sua descoberta do meio ambiente, em seu percurso em direção à autonomia ou seja, em direção ao momento em que ele será capaz de gerir a si mesmo...” (Trocmé Fabre, 2004,p29.) E o professor é um eterno aprendiz, é um aprendente é quem emite e recebe , mas para tanto é preciso ser um gestor de si mesmo, tanto pessoal como profissional, mas este aprendizado passa pela experiência , bons mestres nos ensinam a sermos bons mestres, responsáveis com o que fazemos e responsáveis socialmente.A leitura é a base da formação do professor de língua portuguesa e o investimento na leitura deve ser diário. Será que realmente o professor lê mal, ou por achar que ler por obrigação é ser um não –leitor acaba criando uma imagem mitificada e idealizada dessa categoria acreditando que leitor é aquele que lê muito e de tudo, em qualquer lugar, em qualquer hora, só por prazer , sem nenhuma dificuldade, esforço ou cansaço. È interessante que as pessoas compreendam que determinadas leituras exigem muito do sujeito, exigem lugar adequado para realizá-las , demandam tempo e esforço cognitivo, pois a leitura é : “A leitura é antes de mais uma decifração de códigos de linguagem que permitem a comunicação: como tal, pressupõe o conhecimento das cifras utilizadas, o contato possível com os códigos que o condicionam e o entendimento das situações humanas que a linguagem reveste e subverte – porque na materialidades das cifras, na marca cultural do código, se encontram logo os dados iniciais de formulação da descoberta que a utilização individual, personalizando, concretiza estatutariamente em conceptualização humana. Por isso a leitura ultrapassa imediatamente , fazendo-se , uma pressentida mas inexistente fase de apreensão maquinal da significação , e converte-se na progressiva efetivação, em escrita potencial, isto é , em atuação dinâmica (mental ou pragmática) que por sua vez criará novas necessidades de novas leituras. (Seixo:1978,p.9) Deste modo cada sujeito, dependendo das interações que tem com a linguagem se tornará um tipo de leitor em especial e a potencialização deste leitor se realizará também nas oportunidades de interação que a escola, a sociedade e a família lhe oferecerem. A partir dos dados coletados, após análise de questionários de 20 (vinte) professores, 15 (quinze) disseram que lêem por prazer, fato que vem de encontro a hipótese levantada sobre essa imagem e valor negativo que o professor tem sobre sua leitura e seu papel profissional. Eles lêem, mas a leitura ligada a formação é difícil, exige esforço, cansa, às vezes é realizada por necessidade e o conceito de leitura que temos permeando o discurso da sociedade brasileira é que a Leitura é: uma viagem , é prazer, deleite. 3- Leitura, atuação profissional e formação para a cidadania. O valor dos valores Todos somos seduzidos pelo desconhecido, queremos conhecer o futuro e verificarmos se nossos projetos serão bem sucedidos ou não? Ainda mais quando temos um problema ou complicação na vida. Muitos são tentados a procurar cartomantes, leituras de horóscopos, procuramos em alguém ou nas leituras as respostas que queremos ouvir. A religião também tem um papel fundamental neste aspecto, ela não lhe dá respostas, mas é utilizada para preencher os vazios e baixar as expectativas. Não há nada de científico ou objetivo nessas leituras, sabemos bem disso, entretanto, ainda hoje há uma alta demanda por cartomantes, a leitura de horóscopos, programas de rádio oferecendo estes serviços. Sabemos que a coluna de horóscopo de determinados jornais não poderia ser retirada sob a pena de queda na vendagem e assinaturas. Os livros de auto-ajuda, hoje muito vendidos e lidos por muitos professores, e as religiões que tudo promete através de seus pastores ou representantes também se encaixam nessa mítica capaz de fisgar muitos adeptos, aliada à urgência de demanda de respostas as inquietações do dia-a-dia. Sem falar nas telenovelas, mini-séries e filmes que se interagem com temas recorrentes em nossas vidas como: amor, dinheiro, saúde, emprego, trabalho e família, mesmo na sociedade regida pelo capitalismo, todos precisamos de tudo isso. Há uma desigualdade muito grande em nosso país e hoje são milhões de pessoas, entre adultos e crianças que não têm amor, dinheiro, saúde, emprego e família. Conforme nos diz Ezequiel Teodoro da Silva: “ Dos tabuleiros das cartomantes para a arena social, quando entramos nas condições e determinações da felicidade de uma população , começamos a falar em ética e cidadania . A ética diz respeito à busca incessante por nós, seres humanos , de todos aqueles valores relacionados à felicidade, beleza e justiça. A cidadania diz respeito aos direitos e deveres estabelecidos entre os homens que vivem numa mesma sociedade, de modo que a felicidade, a beleza e a justiça possam ser concretamente vividas.”( Silva, 2006,p.44) De modo que se tivéssemos acesso às condições mínimas de felicidade, beleza e justiça não ficaríamos procurando no misticismo as respostas para uma vida melhor, mais tranqüila. Quando pensamos nas sociedades humanas em suas diferentes manifestações (na arte, na arquitetura, na literatura) pensamos nas linguagens produzidas por essa sociedade e nos valores implícitos nessas linguagens e somente através do domínio das diferentes linguagens seremos sujeitos emancipados e aptos a exercer a cidadania. . Daí a importância cada vez mais urgente de todos os indivíduos se apropriarem da linguagem escrita, portanto da leitura em suas diversas modalidades e níveis, conforme Seixo: “... existem vários níveis de leitura: o da apreensão crítica ou analítica ( trabalho produtivo), o da apreensão informada (prática intersubjetiva de prazer ou conhecimento). É no segundo nível que nos temos evidentemente, procurando, por um lado, fornecer materiais que permitam uma percepção mais elaborada(consciente ) dos textos e difundir os problemas que os condicionam ou postulam. Por que é necessário que o leitor entenda, de uma vez por todas , que a escrita é um trabalho como outro qualquer, com suas leis, as exigências e suas liberdades inventivas, e que para atingir o praticar (lendo) tem que ultrapassar o mero critério utilitário, tem de deixar de apenas se servir do texto para perceber um pouco do modo de fabrico e de organização. O que atinge simultaneamente o escritor e o leitor”. (Seixo,1978,p.14) O conhecimento constitui o esteio sobre o qual os homens ganham consciência dos fenômenos que ocorreram e ocorrem em nossa sociedade, sabendo localizar as suas determinações e origens ou razões primeiras. ‘Quando falamos em conhecimento, estamos falando do conhecimento de natureza epistemológica ou científica, resultado da pesquisa e da reflexão sistemática sobre a realidade e circula na maioria das vezes em linguagem escrita (impressa ou virtual). (Silva,2006,p46.)” Sabemos que o educador não pode estar distanciado deste conhecimento, pois o mundo do conhecimento é o mundo da escrita, logo o domínio da escrita e , junto com ela , as competências do ler e escrever assumem uma importância quase vital para o entendimento do mundo , para a participação social, e logicamente para o exercício da cidadania principalmente na sociedade contemporânea. Desta forma, podemos compreender a leitura enquanto atividades sociais e os sujeitos lêem o que está escrito, seja qual for o sistema de escritura: reside na vida em comum a necessidade que temos de ler. Ler é emancipação, é especulação. Assim: “Ler os outros , ler a nossa disposição para os outros , ler o texto comum que nós e os outros escrevemos de todos para todos. Se escrever é viver, ou vice-versa, isto é produzir materialmente um sentido literal da existência em processo original, ler será seguramente a objetivação em ordem de tal processo con-fuso, a sua dilucidação, a iluminação da significação sobre a comunicação.”(Seixo, 1978,p.10) O trabalho da leitura é povoado de valores ao mesmo tempo em que é inclusão é exclusão, ao mesmo tempo em que é luz é escuridão, mas um mestre que sabe gerir seu próprio conhecimento tem condições de fazer a gestão do percurso de seus aprendentes e de seu próprio percurso. Tendo em vista acentuar os valores positivos decorrentes da posse do conhecimento. 4- Interpretando os dados: à margem de conclusão A análise do presente estudo é baseada em entrevistas com 20 professores da Rede Pública Estadual de Ensino, da Região de Mogi das Cruzes, Estado de São Paulo, com mais de 15 anos de magistério. O relatório aplicado, ainda é um questionário piloto, tendo em vista a não-conclusão da pesquisa, portanto, passível de ajustes. Antes de entrar propriamente dito na análise dos dados, nos reportamos a Chartier: “ Penso que isso nos remete ao problema das condições de possibilidade da história da leitura, considerando que essa história da leitura pode ser um dos meios de objetivar nossa relação com esse ato.Penso que existem várias vias possíveis .Há uma que foi seguida aqui por Robert Darnton, após Carlo Ginzburg, que é discernir o que um leitor nos diz de suas leituras. O problema que se coloca aqui é que evidentemente essa confissão, insere-se sempre numa situação de comunicação particular. Ou a declaração extorquida, no caso dos leitores aos quais se obriga a dizer quais têm sido suas leituras, porque elas parecem “saber mal a fé”, como se dizia no século XV, ou uma vontade de construir uma identidade e uma história pessoal a partir de lembranças de leitura.” (Chartier, 2001,p.235) As respostas dos entrevistados, conforme nos diz Chartier vêm carregadas de valores e de uma esboço de identidade, pois o professor tem um lugar social a preservar e a linguagem mesmo sem querer, o faz transparecer. Do total de 20 ( vinte) professores , 15 disseram que a leitura está presente em seu cotidiano como uma relação prazerosa e 5 como necessidade profissional..Dados que constatam a presença do discurso científico ou letramento de formação nos relatórios, relatos de professores. Por outro lado, a leitura realizada por necessidade profissional às vezes não é considerada como leitura, mas como um trabalho, por que exige mais engajamento, reflexão, esforço, etc. Quanto ao gênero preferido pelos professores ao serem indagados sobre suas preferências, o resultado foi: o texto dissertativo-reflexivo e o narrativo ficaram no mesmo patamar, ou seja 9 respostas para o dissertativo e 11 para o narrativo. No entanto os gêneros narrativos mais lidos são o romance, textos ou livros históricos , livros espiritualistas e de auto-ajuda, além dos livros de religião. O sujeito professor como todos que estão inseridos na sociedade de massa se rendem aos apelos do consumo e a leitura não fica fora, a leitura de livros ligados a exemplos de vida que os ajudam a lidar com os problemas do dia-a-dia ou os best-sellers do momento, com temas ligados ao amor, família, emprego, saúde, são os seus preferidos. Em relação aos vocábulos ligados ao sentido da leitura são todos carregados de valores positivos como: conhecimento, sabedoria, prazer, amor, reflexão, enriquecimento, conclui-se que ler é algo que faz bem ao homem. A leitura é considerada por alguns como um culto, algo cercado de mistérios, devoção; para outros é sinônimo de poder tanto para o bem quanto para o mal, neste sentido citamos o livro O Nome da Rosa de Umberto Eco. Para outros a leitura é um valor cultural, representa posição, pois os altos cargos estão com quem domina o conhecimento , ou seja o poder na mão de poucos e mecanismo de opressão e manipulação para a maioria da sociedade. Atualmente o professor valoriza a leitura, investe em sua disseminação, mas nega a reflexão, o questionamento e privilegia o saber objetivo, quantitativo (saber narrativo) que facilita a manipulação da maioria da população, principalmente dos países mais pobres como o nosso. A complexidade da sociedade contemporânea conduz o indivíduo a uma leitura fragmentada do mundo, centralizada em interesses específicos, e neste sentido a visão geral da sociedade se dilui e tudo fica como antes. A formação de um profissional que busque a sua emancipação como indivíduo e profissional é o caminho para a construção de uma sociedade mais igualitária . 5 - Considerações Finais O trabalho evidenciou a importância da leitura para a formação do profissional da linguagem, com ênfase no letramento de formação definindo assim um perfil cultural do profissional de educação que condiz com o padrão oficial para quem tenha formação superior, que o professor seja aquele tipo de leitor que transite por todos os tipos e gêneros textuais, destacando a leitura de textos acadêmicos que lhe possibilitem o seu letramento de formação, portanto conduzindo-lhe a eficácia de seu discurso . Destacando também a complexidade de nossa sociedade, a sua fragmentação, seus novos paradigmas, que geram uma crise constante de identidade e que alteram a compreensão de mundo do indivíduo em relação aos valores veiculados na pós-modernidade. Os professores de Educação Básica se preocupam com a questão da leitura, incorporam em seus discursos a preocupação e levam para o cenário de aula esta problemática, no entanto não cabe somente a escola a ser a única responsável pela disseminação da leitura para contingentes cada vez maiores. Há necessidade de políticas públicas sérias que levem em conta a necessidade de investimentos em bibliotecas que sejam espaços vivos, que comportem as diversas mídias., e também incentivo à leitura doméstica. Senão as bibliotecas viram depósitos de livros e da tradição, os livros são respeitados, idolatrados, porém não lidos , manuseados. 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